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    O futuro das tecnologias da informação e comunicação

    O futuro não acontece de repente, todo de uma vez. O futuro é criado, paulatinamente, por sinais vindos de lá, por caminhos que vêm de lá. Interpretados nos contextos dos nossos presentes, que se vão, como os anos, cada vez mais rapidamente.

    Entre 2000 e 2003, escrevi uma série de 100 colunas para a finada revista eletrônica NO. Na primeira, o assunto era o papel (e seu papel na sociedade moderna) e o texto, ”O fim de um dos fins do papel” , começava assim: Não passa um dia em que não haja uma frase de efeito, em algum lugar da mídia, sobre o fim do papel, da tinta e do livro. Só que, ao invés de um fato acontecido ou iminente, anuncia-se na verdade um debate, quase briga, quando bibliófilos estão por perto. Sem falar nos fabricantes de papel e plantadores de eucalipto.























    A internet comercial começava a pegar no Brasil e, com ela, a previsão de que o papel ia mesmo acabar. Não só não acabou mas se usa, hoje, muito mais papel do que se usava há vinte anos, tanto na vida privada como nos escritórios. O que a internet anunciava (na época) e o que está começando a acontecer (hoje) é o fim de um dos fins do papel, o de suporte físico à transmissão da informação. Mesmo comprando livros pela internet, não compramos, via de regra, livros digitais, mas textos “de verdade”, que nos são enviados, fisicamente, através de algum meio de transporte. Claro que há e-books e que muitos jornais estão planejando deixar de lado suas versões impressas. Mas meu tema inicial lá de 2000 ainda está longe de ser tratado no passado. O papel, mesmo como suporte para transmissão de informação, ainda tem um longo futuro.

    Papel é uma das tecnologias de suporte à era da informação. Não esta nossa, digital, computada desde o PC, na década de 80, ou dos computadores à válvula da década de 50. Papel está aí há milhares de anos, desde a China antiga. E tornou-se imprescindível depois da prensa de Gutemberg, que ajudou a criar boa parte da civilização que vemos no mundo, hoje. Papel vai continuar por aí por muito tempo, inclusive como suporte à informação digital. Os “novos” suportes à “nossa” era da informação, no entanto, são os sistemas de computação e comunicação oriundos dos estudos teóricos e projetos experimentais, militares e comerciais, realizados entre 1930 e 1950. Daí vem a gênese do que se tem hoje, como infra-estrutura da sociedade da informação, do PC à internet, dos roteadores e fibras óticas a Windows e Linux, dos aplicativos, vírus e sites, dos discos aos processadores e memória dos computadores e celulares de espalhados por todo o planeta. De mais de uma forma, o futuro das tecnologias da informação e comunicação está sendo construído há mais de setenta anos. Nós é que tendemos a olhar para um passado pouco distante ou um futuro muito próximo.

    Que futuro é este? Luciano Floridi, da Universidade de Oxford, teoriza que estamos construindo uma infosfera , um universo que seria o conjunto de todos os documentos (qualquer objeto capaz de reter informação), agentes (qualquer objeto capaz de efetuar operações sobre informação) e todas as ações que podem ser realizadas por agentes sobre documentos (ou sobre outros agentes). A infosfera inclui toda a informação ao nosso redor, e não só a informação digital ou armazenada em meios que nos parecem digitais. Não é nem preciso estender muito a definição para que se inclua, na infosfera, toda a informação guardada (e sendo processada) por agentes de qualquer tipo, inclusive organismos vivos. Como nós. A infosfera inclui toda a informação do universo, todos os suportes capazes de armazená-la e todos os agentes e as ações por eles realizáveis sobre qualquer tipo de informação, em qualquer tempo, lugar e suporte.

    A infosfera de Floridi é um limite superior do que poderá vir a ser o futuro das tecnologias da informação e comunicação e, mais claramente, seu impacto e significado para a humanidade (e possivelmente para outras formas de vida). Imagine que tudo seja informação ou possa ser reduzido a uma dinâmica informacional representada por modelos informacionais (de coisas “concretas” do universo), ciclo de vida de informação (dentro de tais “modelos”, desde o surgimento da informação até seu desaparecimento) e processamento de informação (de todas as formas). Assumindo que cada e toda coisa, evento, sistema, sensação ou pensamento “real” (sim, incluindo seus sentimentos por um semelhante...) pode ser representada na dinâmica informacional sistematizada por Floridi (e descrita, antes e de formas diferentes, por muitos outros), somos todos inforgs (informational organisms, inglês para organismos informacionais) e podemos ser, todos, informatizados. Como parte do, ou de um, sistema.

    Quão informatizados estamos? Por um lado, muito. Cartões de todos os tipos, celulares, declarações de imposto de renda e malha fina, telefones grampeados, agendas on-line, "emeio", IM, orkut,... sem falar que quase todos os serviços e funcionalidades a que temos acesso, em lojas, governo, fábricas e mesmo carros, motos e ônibus, aviões e aeroportos, estão informatizados. Irremediavelmente. E não têm, aparentemente, nenhuma condição de se desinformatizar: esta não é uma tendência anunciada nem mesmo pelos mais pirados gurus de administração. Muito pelo contrário. E aí é que está o outro lado. A nossa informatização mal começou.

    Minha casa tem quase nada de informática e ainda não me reconhece; meu chuveiro não sabe a temperatura que prefiro na água (dependendo da hora do dia e estação do ano); meu carro não se vira (sozinho) no trânsito e, se eu quisesse deixá-lo de lado (para sempre), não consigo (ainda), teclar um mapa no ponto de ônibus e pegar um coletivo, ponto-a-ponto, entre onde estou e onde quero ir. De um jeito fácil, seguro e rápido. Ainda tenho que ir ao hospital fazer exames, quando deveria ter sensores transmitindo meus (e de todos, o tempo todo) dados vitais para os servidores do sistema de saúde, que ainda não têm nem a inteligência para acompanhar a epidemia de câncer de mama do país, imagine para tratar os dados de quase 200 milhões de brasileiros e, usando de redes neurais a lógica difusa, decidir que amanhã, quando eu chegar no ponto do coletivo (que pode não ser ônibus) o lugar pra onde devo ir é o hospital, e não o trabalho. Que terá sido informado da necessidade de minha ausência, face a um tratamento preventivo que será realizado durante parte da manhã... por um robô.

    Todas as cirurgias ainda são realizadas por humanos. No limite de Floridi, pode até ser que cirurgiões ajudem a projetar e treinar os robôs e desenhem as cirurgias. Podem até supervisionar o processo. Mas não vão realizar boa parte das operações. Não, esta não é uma descrição de “Eu, Robô”. Mas será que utopia de um mundo ideal, informatizado aos poucos, sem que consigamos interferir na maior parte dos sistemas e no grau de controle que eles começam a ter sobre a sociedade, não pode se tornar uma distopia onde perdemos o controle de agentes muito sofisticados que ajudamos a criar? E eles, por sua vez, começam a tomar as “melhores decisões” e, aí, o futuro não precisaria mesmo de nós?...

    No mesmo abril de 2000 em que comecei a escrever para NO., Bill Joy publicou um dos textos de maior impacto da Wired em todos os tempos: Why the future doesn´t need us (Porque o futuro não precisa de nós). A tese central de Joy era que estávamos cavando nossa própria obsolescência, ao desenvolver sistemas e mecanismos, digitais ou fortemente baseados em digitalização e redes, que nos tornariam dispensáveis no longo prazo. O argumento de Joy é bem construído mas é auto-desmontável: à medida em que emerge a consciência de que o que estamos fazendo, informacionalmente, levará à nossa obsolescência, começamos também a criar os mecanismos de defesa para que tal não aconteça. Isso se investirmos tanto nas defesas quanto estamos investindo na criação da tal infosfera de Floridi. Se chegarmos a ter (por exemplo) sistemas de informação, nas teles, decidindo que fluxos de comunicação devem ser grampeados, em função de algum tipo de análise automática, estaremos começando a chegar perigosamente perto de realizar a profecia de Joy. Só por acaso, software a serviço das agências de espionagem americanas está começando a fazer justamente isso. Aí é onde mora o perigo.

    A informatização cada vez maior da sociedade e dos atores sociais é irreversível, sob qualquer faceta à partir da qual se vê o problema. Ou as soluções. E nossas principais salvaguardas são sociais e culturais. Os costumes, hábitos, a história, o contexto e os princípios éticos e morais que guiam uma sociedade devem, a todo momento, ser chamados à mesa de debates, quando cada parte de nossas vidas, uma após a outra, começar a sofrer uma influência cada vez maior de mecanismos advindos de uma dinâmica informacional que não só parece mas, verdadeiramente, está fora de nosso controle. A ciência e sapiência vão ser, no passo-a-passo, inserir nossos controles e defesas no processo de informatização de nossas vidas, antes que seja tarde. Para proteger alguns aspectos de nossa privacidade, lamentavelmente, já começa a ficar muito tarde. E, ao sentir isso, só achamos que estamos pagando o “preço do progresso” e “quem não deve não teme”. Muito tempo atrás, quando os nazistas começaram a identificar judeus, houve quem pensasse o mesmo. Os resultados, como se sabe, foram terríveis.

    Mas pertenço ao time dos otimistas incorrigíveis: acredito que pessoas e sociedades aprendem e que a humanidade evolui. O curso dos acontecimentos, no longo prazo, está resolvido. Vamos viver, de fato (e de direito) numa infosfera, tão informatizada quanto for econômica, social e humanamente possível. E tenho quase certeza de que o possível será trocado pelo desejado e o humano e social estarão, no longo prazo, bem antes do econômico. E meu pedido pros anos que vêm é que tudo aconteça bem mais rápido do que vem acontecendo.

    A gente se encontra no futuro. Em muitos informatizados e Felizes Anos Novos.

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    PS: Depois de ter a honra de participar do lançamento do G1 e compartilhar este espaço semanal com vocês por mais de um ano, aproveito o fim de ano pra mudar de vida e volto ao meu blog e meus projetos na Universidade Federal de Pernambuco, no C.E.S.A.R e no Porto Digital. Foi um grande prazer estar no G1; guardarei uma boa lembrança da equipe do noticiário e comentários de tecnologia e espero encontrar todos numa outra aventura, em algum lugar da infosfera. Até lá e sucesso e boa sorte a todos que fazem o G1.

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    Feliz Natal, Brasil Digital

    Acertos entre governo e iniciativa privada vão levar banda larga a mais de 55 mil escolas e quase 3,5 mil cidades. Isso é que é notícia de Natal.

    Tem quem ache que a mídia tem mais é que tecer elogios ao governo de plantão, seja de que lado ou bandeira for, mesmo que esteja errado e errando. Não é bem isso que pensa ou deve fazer a mídia civilizada, como instituição e organizações, muito menos como pessoas, em um regime democrático. Detonar a independência da mídia é sempre o primeiro ato das ditaduras, sejam elas dos militares do Brasil do passado ou dos populistas do presente da América Latina.

    Ainda bem que, até aqui, estamos escapando desta sina. Este, em si, já é um bom sinal de um Feliz Natal. Colunas como esta, que cobraram desde seu princípio o trabalho de quem deveria estar (no governo e fora dele) resolvendo problemas, são torpedeadas quase que sistematicamente por quem acha que deveríamos, todos, estar “a favor”. Até os humoristas. Vã esperança. Mas isso é outra história.

    Até porque o texto de hoje é pra comemorar um grande acerto do governo: a bem sucedida negociação, com as operadoras de telefonia, pra levar banda larga a todas as cidades do país e, em particular, a mais de 55 mil escolas públicas que ainda vivem na era de Gutemberg, aquele do papel impresso. Não foi fácil chegar até aqui, até porque o aqui, no grande chão do Brasil, são quase 3,5 mil cidades. Talvez não seja fácil garantir a execução do acordo ao pé da letra.

    Mas este é o papel do governo e todos esperamos que ele seja cumprido à risca, trazendo pra rede, em alguns anos (tão poucos quanto permitiu a quebra-de-braço entre governo e teles), dezenas de milhões de pessoas. Justamente -- como se poderia argüir -- aquelas que, mais isolados do resto do mundo, deveriam ter sido as primeiras a ter conexões digitais de alta qualidade.

    Mas claro que nunca é assim. A exclusão (de qualquer tipo) é quase sempre econômica, acima de tudo. Não é à toa que as teles brigaram até o fim pra não ter que chegar até os fins-de-mundo do Brasil, onde há muito lugar pra conectar, pouca gente pra se ligar e muito pouca riqueza, de onde se pode, no curto prazo, extrair renda em função da prestação de serviços de comunicação. Aí é onde está, exatamente, um dos mais relevantes papéis do governo: compensar os desníveis econômicos e regionais e promover um desenvolvimento inclusivo em todo país. E era para isso que deveria ter servido o fundo de universalização dos serviços de telecomunicação, o finado FUST. Desde que começou a ficar claro, mais de dez anos atrás, que comunicação era a mesma coisa que internet, o FUST deveria ter começado a ser usado pra botar todo mundo (começando por escolas, bibliotecas, hospitais e centros sociais) na rede.

    Mas as rotas mais curtas, no mundo real, não são ponto-a-ponto e nem linhas retas. O menor caminho entre estar fora da rede e nela, neste caso, foram dez anos de espera, indecisão e falta de vontade e capacidade política, negocial e administrativa de muitos governos. Agora parece que a coisa vai, com o novo conjunto de metas de universalização, negociado pela casa Civil e já aprovado pela Anatel. E a coisa, no caso, não é pouco: pelo acordo firmado entre as partes e sacramentado em programa, a iniciativa privada vai gastar algo em torno de R$ 1 bilhão pra levar internet (em banda larga) a todos os municípios e escolas públicas brasileiras até o fim de 2010, que não por acaso coincide com o fim do mandato no Planalto.

    Mas vamos deixar este detalhe pra lá. O importante é que banda larga, onde existe, tem a ver com geração de empregos, com um maior número de negócios de tecnologias da informação e comunicação e um maior número de negócios em geral. Cada 1% de penetração de banda larga pode implicar em 0.2-0.3% no aumento do número de empregos, o que não é pouco. Nos EUA, entre 2003 e 2005, o aumento de disponibilidade de banda larga pode ter criado, em todo país, quase 300 mil empregos. E tais evidências são confirmadas por estudos de respeitadas instituições mundiais, como o MIT e a Brookings Institution.

    Além de efeitos benéficos já comprovados na economia privada, banda larga também pode levar a um significativo incremento na disponibilidade e qualidade dos serviços de ensino, saúde e dos serviços públicos em geral. O que é nada menos que óbvio, dado que tais serviços, pra quem mora onde já existe banda larga, têm uma outra cara. Ou alguém acha que é possível ter acesso a ensino à distância, de mínima qualidade, sem banda larga? Ou será que medicina interativa funcionaria por fax ou linha discada? Numa emergência, até pode ser. No dia-a-dia, não dá.

    O Natal de 2007, pra banda larga, vai ser um marco. Um ponto de partida. É o começo da era onde se deixou pra trás as amarras do “setor de telecom” e suas metas de universalizar voz e orelhões e onde, de uma vez por todas, se resolveu botar o país inteiro na internet. Isso não tem preço. Além de tudo o que já foi dito, conectar o país em banda larga é uma forma de integração mais radical do que a disseminação da TV nos idos de 1970: enquanto a TV era apenas do centro pras pontas, banda larga é omnidirecional e, por tanto tempo quanto continuarmos lutando pra garantir, não tem controle central. É todos pra todos, ligando tudo, em todo canto, a toda hora.

    Taí uma coisa que eu pediria, de presente, pra um país como o meu. E parece que, desta vez, Papai Noel prestou atenção nas nossas cartas e vai entregar justamente isso nos próximos três anos. Tomara mesmo. Não vai ser por falta de crença e otimismo, de minha parte, que não vai acontecer. A todos, um Feliz Natal. Em breve, (e pra todos) em banda larga.

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    Ano Novo, Tecnologia Nova: 3G

    Esta semana saberemos que companhias vão operar quais licenças, e onde, no Brasil, para prover os serviços que vão tornar os celulares cada vez mais parte da internet. Ou pelo menos era isso que deveria acontecer...

    No correr desta semana, salvo alguma disputa legal de última hora, saberemos que operadoras, entre as muitas na disputa, vão nos prover serviços de terceira geração de celulares. Cada uma deve gastar centenas de milhões de reais de ingresso pra entrar no jogo, sem falar nos bilhões de reais de infra-estrutura pra poder participar do campeonato de provimento de acesso móvel às comunicações em todo país.

    Se as regras não mudarem, quem pegar os filés, como São Paulo, vai ter que roer ossos em lugares onde há menos clientes em potencial e, nestes, rendas médias mais baixas. Além de garantir a cobertura em todo o Brasil. Coisa que não se faz de uma hora pra outra, dada a extensão e complexidade do espaço. Mas isso nós já sabemos. O que deveríamos saber, também, é o que vai mudar nos serviços prestados pelas operadoras. E nos preços que elas vão cobrar por eles.

    Em tese, o serviço móvel de terceira geração deveria ser uma internet de dispositivos móveis. Em tese. Deveria. Palavrinhas difíceis... Na internet, qualquer serviço pode ser provido por qualquer um e usado por qualquer outro. Alguns serviços são pagos; um e outro acertam isso entre si. Não há uma “operadora” de internet no meio dos dois. Quando a internet comercial começou, no século passado, até se pensou que seria o fim das operadoras. Nada mais óbvio: se tínhamos uma rede na qual qualquer dispositivo poderia se conectar, em qualquer lugar, a serviço de qualquer usuário, para acessar qualquer serviço, de qualquer lugar, a preço fixo por assinatura mensal, com transferência ilimitada de dados (dentro do limite operacional possibilitado por sua velocidade de conexão)... qual era mesmo o papel da operadora? O de provedor de infra-estrutura, à qual provedores e usuários de serviços e aplicações se conectavam.

    Mas é claro que não foi bem isso que aconteceu. As teles não saíram (literalmente) do meio e, com a penetração de celulares, na sociedade, mais rápida do que a da internet, os telefones móveis se tornaram a chave para manter o domínio da plataforma de comunicações nas mãos das operadoras. Ou melhor, manter e ampliar o domínio. Como assim? Nos “telefones” só o que existia era telefonia e alguns serviços mixurucas, como despertador. A tele dominava todos. Nos “celulares”, rapidamente se abriu as portas para um mundo em rede, rede de serviços, potencialmente disponíveis para tudo e todos.

    Mas nenhum mercado de software e serviços de terceiros, dependente da infra-estrutura das operadoras, decolou de verdade no mundo, à exceção de alguns países do Oriente, notadamente no Japão. O mercado de jogos móveis, no Brasil, fracassou redondamente, suicidando a capacidade nacional de criar jogos de classe mundial. As operadoras, dominando todo o processo de entregar o jogo na ponta e controlando as interações entre jogadores e entre jogador e servidor, tornaram o processo complexo demais pra que o mercado fosse criado. E caro demais pra que os jogadores quisessem jogar. Há jogos que custam R$5 e cujo download, pro celular, custa R$10. Jogado em rede, pode-se detonar outros R$ 5 por dia. Cento e cinquentinha por mês. Prefiro a LAN house da esquina. Ou economizar pra comprar um Wii no Paraguai.

    Mas 3G vem aí. Teoricamente, como já se disse, é banda larga e aberta, pra tudo e todos, com transferência ilimitada de dados, por um preço fixo mensal. Aqui em Recife, está em modo beta. Só que não é banda tão larga que possa se chamar de 3G, pois o limite, aqui, é 1Mbps. A tecnologia usada, HSPA (High Speed Packet Access), uma das evoluções 3G das redes GSM, aceita 7,2 Mbps ou mais e tem sido usada, mundo afora, para prover serviços de rede em 3,6 Mbps. Se este fosse o caso, aqui, eu trocaria hoje mesmo meu serviço ADSL, fixo e de teóricos 1 Mbps, que nunca me entrega mais que 30% disso.

    Quem tem a 3G móvel, aqui, pode servir de teste pra quem vai comprá-la Brasil afora. Parece que o megabit/segundo não chega, como na linha fixa, a 30-40% disso na maioria dos casos. E custa R$ 100 se usado em um laptop, com um modem específico. No celular, a coisa é muito mais complexa, por razões que a infra-estrutura disponível e os modelos de negócio das operadoras devem explicar muito bem. Pra se ter uma idéia, uma conta de R$100/mês só inclui 20MB de tráfego de internet, algo que pode ser evaporado em um mísero dia, se o usuário estiver navegando em mapas pra achar seu caminho em uma grande cidade. A conta de trezentos e tantos reais dá direito a 150 MB de internet, o que ainda é muuuito pouco quando se pensa que o principal uso dos celulares, no curto e médio prazos, vai ser mesmo acesso à internet. Ah, sim: pelas regras do serviço, “chamadas telefônicas”, na rede da operadora, têm prioridade sobre qualquer outro serviço (mesmo que eles estejam lhe custando muito caro).

    Resumo da ópera: se for implementado e precificado de forma parecida com esta no país, o impacto da terceira geração de celulares dificilmente será sentido por aqui, em escala. Ou demorará o tempo que for necessário para as operadoras entenderem que seu novo papel (desde 1997!) é o provimento de infra-estrutura (e serviços) de rede para que negócios e usuários criem mercados intensivos em digitalização e comunicação entre pares. Até lá, vamos ter só mais uma rede de telefones cheios de funcionalidades potenciais que nunca serão devidamente usadas pelos clientes, pois tudo será cobrado como... conta telefônica. Exatamente como na década de 50. Ainda bem que já podemos fazer DDD e DDI dos nossos celulares. Tem horas que não sei como conseguimos isso...

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    MP3: padrão, grátis e legal no ano novo


    Sinais do futuro indicam que os principais atores do mercado de música vão se render ao MP3 e, talvez, a novos modelos de negócio ao redor do formato. Será?

    A Pepsi vai lançar uma campanha de downloads legais de MP3, nos EUA, em fevereiro que vem. Cada cinco tampinhas de refrigerante (um código nelas, de fato) vão dar direito a um download de música em formato MP3 na amazon.com. Serão cinco bilhões de garrafas e tampinhas na promoção; o potencial de downloads gratuitos é de um bilhão de canções. Um monte, por qualquer medida. Inclusive esta: a revista Billboard estima que serão vendidos cerca de cinco milhões de músicas digitais nos EUA, no ano que vem, por semana. Coisa de um bilhão e oitocentos milhões no ano. Só o dobro do que a Pepsi vai “dar” pra quem tomar seu refri. Espera-se que a promoção rode o mundo em breve.

    Noutro departamento, que tem tudo a ver com a essa conversa, o WalMart está para anunciar que seus fornecedores de música devem prover canções em formato MP3 para o site em que vende música on-line. Segundo fontes não confirmadas da maior rede mundial de varejo, eles “só estão fazendo o que os clientes querem”. Quem não estiver disposto a fornecer seu material em MP3, segundo as mesmas fontes, sairá do catálogo. Oficialmente, não se comenta o assunto. Mas quem entende do negócio garante que esse é o futuro.
    Olhando de longe, visto por nós que nos convertemos a MP3 há muitos anos, aqui no lado usuário da história, até parece que as grandes empresas de música e seus distribuidores acabaram de chegar no século XXI, com quase uma década de atraso.



























    Pois é isso mesmo. E por uma razão singela: a indústria da música nunca foi da música mesmo. Na forma como a conhecemos, ela se especializou no meio de transmissão e reprodução da música, que era seu domínio monopolista desde que o “disco” foi inventado e disseminado em larga escala, coisa que aconteceu há uns cinquenta anos. A digitalização do meio (que começou mais de vinte anos atrás) e a internet, nos últimos dez anos, pulverizaram as bases negociais de toda uma indústria que, ao mesmo tempo em que tentava inutilmente proteger seu velho modelo de negócios, relutava em adotar algum dos novos modelos disponíveis, inclusive por medo de sua escolha não vingar. E não seria a primeira vez que uma indústria inteira, ao escolher o modelo errado, naufragaria.

    A mensagem que parece ter chegado de vez, às gravadoras é simples. E velha. MP3 se tornou padrão mundial para áudio. Mesmo que seu material não seja disponibilizado legalmente em MP3, o tempo para cópias pirata neste formato tomarem conta do mercado é bem perto de zero. Melhor, talvez, tentar ganhar dinheiro “com música” neste “novo meio”. Até porque um estranho no ninho da música, a Apple, tem hoje 70% do mercado de música digital, usando um formato fechado para seus iPod. Coisa de deixar os estúdios babando. E a galera por trás dos outros formatos, como o quase padrão MP3, se roendo de raiva. Por isso que estão se aliando, por trás do formato MP3, empresas que vão da Pepsi ao WalMart e Amazon, passando pelas grandes e pequenas gravadoras. E por fabricantes de celulares.

    A Nokia acaba de fechar com a Universal um acordo que permitirá aos compradores de certos modelos de celulares o download de toda a coleção de registros sonoros da universal por um ano, findo o que a música "fica" com o "dono". Os outros três grandes negócios mundiais de música estão sendo cantados para entrar no negócio, que muito provavelmente há de remunerar o que costumávamos chamar de gravadoras com uma porcentagem da renda do tráfego (nas operadoras) para trazer a música pro celular. A operação começa no segundo semestre de 2008.

    Trazer MP3 para o centro da arena e inovar o modelo de download são um grande avanço. Ainda não é onde eu acho que vamos chegar: alguma hora, vamos simplesmente "assinar" um serviço de música e poder ouvir o que quiser. Tipo R$ 10/mês com direito a ouvir 100 horas de música/mês. Da música que você quiser. Onde você quiser. Pelo meio que você quiser. 100h/mês é três horas/dia. Muito. Se você achar pouco, a conta poderia ser 3h/dia de sua escolha, mais 9h/dia de multicast, música que a gravadora "escolheria" pra você ouvir -tipo last.fm-, na esperança de você pagar, depois, pra ouvir.

    Alguma hora vamos chegar lá. Este passo da Nokia, limitado a alguns celulares, é mais importante do que iTunes, limitado a um dispositivo particular. E os fabricantes de celulares podem ser uma das mais importantes chaves do processo: com 3.3 bilhões de celulares no planeta e um mercado apenas de reposição, hão de achar outras fontes de renda. A Nokia, em particular, está redefinindo sua competição: quer pegar Google (em mapas e localização) e a parte "Live" da Microsoft, além da Apple, enquanto provedora de iTunes e não como fabricante do iPhone. A Apple, como "fabricante" de celulares, está chegando atrasada no jogo. Mas tem Steve Jobs, um grande designer, lá. Enquanto tiver, vai ser osso duro de roer. Mas até ela, em muito breve, pode ter que vir pra onde todo mundo está chegando: MP3. Simplesmente porque é isso que os clientes querem. E o cliente sempre tem razão.


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    A “bandinha” do Natal

    A oferta de “banda larga” vai aumentar neste Natal. Não é banda larga mesmo, nem pense.

    Fabricantes de PCs, associados a operadoras celulares, estão anunciando ofertas de banda “larga” em PCs e laptops, a preços de poucas dezenas de reais por mês. Esta talvez seja, no mercado de PCs, a grande novidade do Natal: você sai da loja com seu computador conectado, sem ter que instalar linha telefônica, modem ADSL, configurar portas e provedores.

    Estar conectado, no entanto, pode não significar muito. Estou usando uma destas conexões celulares há alguns meses em meu laptop. Certas horas, não há conexão nenhuma (mesmo havendo cobertura celular), justamente como na velha rede física de acesso à internet à qual nos acostumamos. Noutras, os 256 kbps teóricos de um acesso (as velocidades variam muuuito) são meros 50kbps ou menos, o que me leva de volta pro tempo em que internet era só emeio. Ou seja: a banda do Natal não é tão larga assim. Vai ver são só alguns poucos músicos numa bandinha de shopping, tocando Jingle Bells num corredor bem apertado.



    Mas vamos lá: não adianta só reclamar. A novidade da combinação fabricantes e operadoras pode não ser exatamente os anúncios deste Natal, mas o que estaria por vir nos próximos. Uma das teles deixou vazar um plano de investir mais de um bilhão de reais em cobertura WiMax nas grandes cidades brasileiras, o que pode mesmo criar uma nova forma de acesso de banda larga, melhor distribuído e móvel. As outras não demorarão a reagir, pra não ficar de fora do jogo da internet, onde há muito dinheiro e para onde irão todas as formas de comunicação, mesmo aqui no Brasil.

    O que tornaria apenas uma questão de tempo a existência de uma cobertura nacional, ampla e irrestrita de banda larga no Brasil. Certo? Talvez. Há discussões, mundo afora, sobre o significado de irrestrito, ou ilimitado, quando o assunto é acesso à internet. Se você comprar um desses planos de acesso ilimitado do nosso Natal, que custam aí pela meia centena de reais, pode ter uma surpresa. Quer ver? Faça as contas: são trinta dias de vinte e quatro horas de três mil e seiscentos segundos num mês. Arredonde e são dois milhões e meio de segundos por mês. Multiplique por (digamos) trezentos kilobit por segundo e divida por oito, pra saber quantos bytes teóricos sua conexão deveria produzir, por mês... o que vai dar perto de oitenta gigabytes. Esqueça. Minha assinatura, de 1GB/mês, quase nunca vê (e já tentei de Belém a Curitiba) passar mais de 10 megabyte/dia. Por mais que eu tente, não consigo consumir mais de 300 megabyte por mês, menos de um terço do que – em tese, pelo menos, teria direito, pago e acertado no contrato.

    Ilimitado, para as operadoras do Brasil e do mundo, significa algo parecido com “compartilhamento ilimitado de acesso e infra-estrutura limitadas” . E não poderia deixar de ser assim, pois lá atrás das nossas conexões existe uma plataforma limitada, que custa muito dinheiro para botar no ar e operar. E da qual os investidores querem retorno... muito e rápido. A ordem do dia, na operadora, não poderia deixar de ser outra: vender tanto quanto possível, pelo melhor preço que for possível, e auferir daí o melhor resultado possível. Deixando o consumidor tão satisfeito quanto... possível.

    O problema de tantos possíveis numa mesma sentença é que os primeiros têm um peso muito maior do que o último. O que faz a balança não ficar muito equilibrada. Talvez, na euforia das festas de fim de ano e de tantas ofertas e promessas para o futuro, fosse bom trazer a ANATEL e o PROCON para perto da árvore, para entendermos todos, usuários e operadoras, o que estamos comprando (e não ganhando) de presente, neste Natal. Pra que tenhamos, no mínimo, o que estamos comprando. E não, apenas, o que as operadoras acham que é... possível.

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    Nintendo detona a competição

    Nintendo Wii é o objeto de desejo do mundo, no Natal. Sony e Microsoft pedem, de presente a Papai Noel, bolas de cristal pra entender o mercado.

    O Natal nos lugares em que consoles de videogame são vendidos a preços razoáveis vem aí e a disputa pelos olhos, neurônios, ouvidos, membros e tempo dos jogadores se aproxima de seu clímax anual. Na arena, o Nintendo Wii, vindo de uma companhia que era dada como morta (logo antes dele), o Xbox 360, da Microsoft (que dispensa apresentações), e o PS3, da Sony, que, supostamente, ia arrasar a competição como a máquina de jogar mais poderosa de todos os tempos, baseada em um processador que deixaria qualquer coisa feita pela Intel e AMD na lata de lixo da história.

    Só que, em em novembro, serão vendidos 912 mil Wii, 636 mil Xbox 360 e 438 mil PS3. Em dezembro, a coisa fica ainda melhor para a Nintendo, com previsão de venda do Wii batendo 2,37 milhões de unidades, contra 1,56 milhões de Xbox 360 e 695 mil PS3. Hoje, para cada PS3 vendido, a Nintendo vende dois Wii; em dezembro, serão três Wii para cada PS3. No total, até agora, a Microsoft vendeu 13,2 milhões de Xbox 360 (e ainda está perdendo dinheiro na divisão de entretenimento), a Sony tem 5 milhões de PS3 na praça (também perdendo dinheiro com eles) e a Nintendo já vendeu 13,4 milhões de Wii. E só não vende mais porque, simplesmente, não consegue atender a demanda.

    Mas isso não é uma batalha, é uma grande guerra e as posições estão mudando, por exemplo, no Japão. Só que as coisas estão dando tão certo para a Nintendo que, se eu tivesse dinheiro, estaria apostando nela agora, enquanto a mágica do Wii ainda está no alto e a companhia não vê um competidor muito perto (os lucros dobraram do ano passado pra cá). Daqui a dois, três anos, pode ser outra conversa, completamente diferente.

    Moral da história (do ponto de vista de inovação): a Nintendo tinha tudo a perder (pois estava perto de fechar) e, ao mesmo tempo, nada a perder. Podia apostar em algo revolucionário, mas tinha que estar no passo do mercado, sincronizada com o público potencial de jogadores de todas as idades e competências. Não podia entrar em conflito direto com os dois grandes, pois nem recursos tinha para tal. Resolveu apostar em um console em que todo mundo (principalmente os jogadores casuais) pode jogar, mas que ainda assim tem um forte apelo para os jogadores "hardcore".

    Poderia não ter resolvido a equação, mas ouviu muita gente, ralou muito (veja esta entrevista com dois dos designers, feita há um ano), num esforço que envolveu até as famílias dos funcionários e fez o que tinha de ser feito, num modelo de negócios que dá retorno, considerando o pacote hardware e software. Deu certo.

    Tão certo que, de casas de repouso da terceira idade no interior da Inglaterra a laboratórios escolares em Recife, passando por lan houses na Malásia e cafés no Vietnam, todo mundo quer um Wii. O mais impressionante, talvez, sejam idosas operando um WiiMote e competindo nos esportes virtuais da caixinha da Nintendo. Isso pega. E ainda vamos ouvir muito mais dessa história.

    E a Sony e Microsoft? Estão se recuperando da explosão que as atingiu e indo atrás da Nintendo. Já foi assim no passado e vai ser assim de novo, por um tempo. O maior problema da Nintendo, agora, é não se deixar prender pela plataforma de sucesso que ela própria criou e, repetindo o passado, ser devorada por... ela própria, como quase foi o caso há meia década.

    Se a história servir de algum alerta, ela (e quem mais estiver olhando a guerra) pode usar sua própria história, os erros da Sony e Microsoft nos últimos três anos e, certamente, o exemplo da Sega. Pra quem acabou de chegar ao planeta Terra, a Sega foi um dos grandes no negócio de consoles e hoje (muito menor) desenvolve jogos, inclusive pra Nintendo. Para os saudosistas, a a Tec Toy está lançando, no Brasil, um dos consoles Sega do século passado. Se você pensa que é pouca coisa, não é não: a coisa está atraindo a atenção do mundo. Vá entender...


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  7. Atualizado em -

    É informação? Deixe comigo, cuido de tudo...

    Umas poucas companhias vão fornecer toda a infra-estrutura, informação, software e serviços que você precisa. Será mais um mercado a ser regulado?

    Imagine que você tivesse um plano para ser o provedor de todo o software que os seres humanos usariam. E não só: esse software seria provido como serviço e a partir de seus servidores, espalhados por todo o planeta. Como se não bastasse, e se você tivesse um plano pra ser o dono, também, de parte da infra-estrutura de comunicação que levasse os usuários e seus dados àqueles sistemas e servidores de que já falamos?... Comunicação e computação, em conjunto, a preço perto de zero para muitos, com patrocínio de outros. Todos os dados de quase todo mundo no mesmo lugar e passando pelas mesmas redes de comunicação, sob seu comando.

    Parece um plano de dominação do mundo, pois não? Daqueles que vilões delirantes de filmes de super-heróis costumam ter e que, com invariável precisão, dão errado nos últimos minutos, quando, logo antes do beijo na mocinha, nós e o planeta somos salvos pelo herói. E se não for um plano de dominação do mundo, mas parte de um mantra corporativo cujo propósito é “organizar toda a informação do mundo”? E se, para tal, houver dinheiro que não acaba mais, a ponto de destinar quase US$ 5 bilhões só para participar da compra de licenças para operar telefonia celular (começando por um mercado saturado como os EUA)?

    O nome do fenômeno é fácil de advinhar: Google. Depois de dominar (à exceção da China, onde perde para Baidu) a organização e busca de informação na internet, aí incluídos e-mails, mapas, aplicações de todos os tipos e, agora, plataformas de software, Google decidiu que precisa, para melhor servir a seu público, estar dentro das redes físicas e móveis e, se der, dentro dos celulares, que é onde todo mundo, de resto, quer estar. E quando se tem recursos para tentar, as coisas são bem mais prováveis: o dinheiro que já foi separado para lutar por freqüências móveis é só um terço do caixa da companhia, que pode alavancar muito mais, se for preciso e fizer sentido.

    Claro que há outros jogadores no campo, como a Microsoft, principal professor de Google, que aprende muito rápido com o mestre. Robert Cringely diz simplesmente que Google é “a próxima Microsoft”. Não porque esteja fazendo as mesmas coisas que Redmond faz, mas porque, à medida em que se transforma em monopólio, fica cada vez mais difícil se comportar como o start-up que tinha relativamente poucos recursos e prometia “não fazer o mal”.

    Hoje, a companhia se compromete, publicamente, a “reparar” todo o mal que faça, se isso acabar comprovado. Mas imagine-se, você lá do começo do texto, a caminho de um monopólio e, já hoje, com valor de mercado de US$ 200 bilhões (a Microsoft vale US$ 320 bilhões e a IBM, US$ 150 bilhões). Que advogados você poderia pagar para comprovar que você, e não a pequenina empresa do lado que acabou de ser destruída por um de seus movimentos, estava certo?

    É difícil ser monopólio. Muito difícil. A IBM já teve seus dias e a Microsoft ainda os tem hoje. Google é o próximo da lista, pois parece inevitável que seja assim. Já que o mundo caminha em tal direção, e informação, comunicação e computação vão virar serviços mesmo, fornecidos e bilhetados à maneira que telefonia, água e energia elétrica o são, hoje em dia, o destino final é estruturar e regular o mercado de “informaticidade” em prol dos consumidores, garantindo inovação permamente e competição justa.

    Danado é fazer isso sem que as patas do governo -- aqui ou em qualquer lugar -- estraguem não só os negócios, mas os serviços que eles nos fornecem. Se dependesse das estatais ou monopólios privados e a regulação da época, a internet não teria existido. A Embratel fez o que pôde, no Brasil, pra evitar a rede e, depois de entendê-la inevitável, fez tudo para ser o “único” provedor do país. Queria ser o Google do tempo, sem nenhuma outra credencial a não ser a posse de boa parte da infra-estrutura nacional de informação. História pra ser lembrada e contada aos filhos e netos, à medida em que Google começa, por sua vez, a ter vontade de ser uma “embratel” lá no futuro... ao mesmo tempo em que nos lembramos de que ninguém “cuida de tudo”, pra ninguém, por nada.

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  8. Atualizado em -

    O maior problema dos celulares...

    A terceira geração de celulares vem aí. Será a hora de abrir as redes das teles?

    Celulares não são telefones. E o maior problema dos celulares é as operadoras. As antigas “teles”, infelizmente (muito mais para elas do que para nós, usuários), ainda funcionam, em sua maioria, sobre modelos de negócios que parecem ter sido escritos por Graham Bell em pessoa. Antes de ele ter inventado o telefone. Antes da internet, nós fazíamos ligações telefônicas. E isso era quase tudo. Depois da internet, ainda fazemos quase só ligações telefônicas. Mais de 3/4 do faturamento da maioria das teles, no mundo, é de ligações telefônicas. O que é, além de surpreendente (mais de dez anos depois da internet), absurdo.

    Num mundo, digamos, ideal, a infra-estrutura das teles seria a internet e os dispositivos móveis seriam meros pontos de acesso à rede, por mais capazes que fossem. Algo parecido com a internet fixa e os desk e laptops que usamos para entrar na nuvem de conexões. Agora, o interessante é que a infra-estrutura das teles é de internet e os dispositivos que muitos de nós temos são “computadores (multimídia) móveis”. Logo, aqui e agora, a pergunta é... por que será que ainda estamos pagando por “ligações telefônicas”, se o telefone é “apenas” mais uma das múltiplas aplicações que “rodam” sobre as camadas de infra-estrutura e serviços da internet?




















    A resposta é... por que haveriam de? Uma das respostas pode ser dada, por exemplo. Se seu celular “sai” de Recife pra São Paulo e a tele cobra -- todas as teles cobram -- um Real e pouco a mais (além da sua ligação, de “roaming”) só para você fazer uma ligação para sua mãe e dizer que que o avião não caiu... por que haveriam de? O custo, hoje, para um celular “sair” de sua cidade e “falar” em outra é perto de zero ou, dependendo da infra-estrutura e de seu modelo de negócios, zero. Se posso cobrar por algo que me custa zero para produzir, não há nada que me convença a mudar de negócio. Ou há?...

    Pode ser. Imagine que seu “celular” não seja um “telefone”. Ele é (e é mesmo) uma plataforma de comunicação e computação móvel. Para um celular, posso escrever aplicações. Como uma de voz-sobre-IP, um Skype, por exemplo. Se eu escrevesse este software, e se houvesse um mundo de gente que tivesse acesso a isso (quase qualquer um que tenha um celular “programável”), e se esse celular fosse a ponta, na nossa mão, de um “serviço” que tem diretório, gravação de chamadas, de recados, redirecionamento... ou seja, se a minha aplicação e os serviços a ela associados fossem a mesma coisa que uma --chegamos lá -- telefônica igual àquelas do passado, da época das anáguas, será que a gente não poderia telefonar a preços muito mais baixos? Sim, claro que sim.

    Mas, para isso acontecer, teríamos de tirar da tele de hoje os 3/4 de receita oriundos de falas ao telefone. Aí é onde a porca torce o rabo. Para que isso fosse economicamente viável, ou a própria tele apareceria com tal aplicação e serviços ou a tele teria de abrir sua plataforma de transporte e processamento de informação para que nós, aqui fora, escrevêssemos tais sistemas e aplicações. E muitos outros, claro. Alguma tele faria isso? Uma, pelo menos, já está fazendo: a British Telecom tem, hoje, só 20% de suas receitas em “voz”, pois saltou para o futuro junto com a internet e está instalando uma rede IP -- a base da internet -- que conecta todos os endereços físicos do Reino Unido.

    Alguma outra tele vai fazer? Se depender delas, nem tão cedo. A menos que uma -- ou outra --, que não esteja e saiba que não conseguirá estar entre os líderes de algum mercado, e resolva realmente transferir para seus clientes e usuários os benefícios que a internet já oferece para a própria tele, mas dos quais somos excluídos.

    Taí uma boa coisa para a Anatel levar em conta na licitação para as licenças de operação para a terceira geração de mobilidade no país: definir que a infra-estrutura de tecnologias de informação e comunicação das teles, em 3G, seja aberta o suficiente para que usuários e empresas consigam escrever aplicações sobre tal plataforma e provê-las para o mercado. Pagando às teles pelo uso da plataforma, claro. A Anatel deveria levar em conta que a próxima plataforma de programação, de desenvolvimentos de serviços, é a internet. E 3G é internet pura. Móvel.

    Taí uma discussão boa danada para a gente botar neste negócio de 3G, aqui. Ia ser muito bom para os usuários. E as empresas iriam, mesmo, para o futuro. Era capaz até de vermos sendo desenvolvidos, no Brasil, aplicações e serviços e empresas de classe mundial. Criando conhecimento, trabalho, renda e divisas aqui. Só precisa ser feito.


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  9. Atualizado em -

    É preciso abrir os mundos virtuais...

    G1 deixa de reportar “diretamente” de Second Life. Será o fim do mundo?

    O G1 deixou de “reportar” Second Life de forma “separada”, como fazia no G2, blog pilotado por avatares do site que “viviam” lá no mundo virtual. Second Life não é o único mundo virtual que há por aí, é apenas parte do que se chama da primeira geração de metaversos, da qual fazem parte, entre muitos outros, Gaia, Habbo, IMVU, Kaneva, Metaplace, MTV, There, vSide e Zwinky, sem falar nos jogos massivamente multiusuários, como WoW e Lineage, que têm muito mais tempo de estrada, usuários, interesse e faturamento que os “mundos virtuais”.

    Não é que G1 resolveu deixar Second Life “pra lá”, mas de certa forma o mundo virtual deixou de ser novidade e, ao mesmo tempo, parece que já mostrou -- e consequentemente exauriu -- o conjunto de possibilidades que iria criar para novas formas de expressão e interação usando a internet. Há alguns meses, este blog usou um gancho da revista "Wired" pra perguntar se havia vida em Second Life.

    A resposta dos grandes usuários e anunciantes era, à época, não. E continua sendo, hoje. Mas isso não importa. O principal papel de Second Life e dos outros mundos virtuais da primeira geração, como poderíamos chamá-los, não é serem úteis ou não, muito menos se tornarem um mega-sucesso de público e crítica. A hora é de discutir possibilidades e de apostas no futuro, e não de imaginar que Second Life vai substituir FaceBook ou MySpace.

    Na bolha da internet, entre 1995 e 2000, quando todos pensávamos que havia um número infinito de potes de ouro no fim do arco-íris, e isso quando não havia nenhuma nuvem à vista, apostou-se muitas centenas de bilhões de dólares investindo em quase tudo, de licenças 3G a preços astronômicos e irrecuperáveis no mundo real até sites cujo modelo de negócio era vender um dólar por noventa centavos, sem falar numa rede global de satélites que daria cobertura a telefones móveis em qualquer ponto do planeta. Há quem estime o estrago em mais de um trilhão de dólares. E há quem diga que foi dinheiro bem gasto, no fim das contas...

    Second Life e companhia são experimentos estratégicos arriscados, pois seus proponentes e investidores não sabem, na partida, nem onde querem chegar. Se aprenderem muito, muito rápido e com a participação de muitas cobaias (nós, usuários), pode ser que haja uma segunda rodada de oportunidades onde os potes de ouro, enfim, apareçam. Claro que se tenta, toda vez, usar a assimetria de informação de um nicho da economia (no caso, virtual) para tentar estabelecer um padrão de uso e, a partir dele, cercar um nicho de receita significativo ou, quem sabe, virar padrão de fato. No caso dos mundos virtuais atuais, nenhum é candidato a tal. Nem de perto.

    O nome do jogo, lá na frente, no futuro, vai ser interoperabilidade. Mundos que entendem uns aos outros. Mundos virtuais como parte da grande web. Onde eu e meu avatar existimos -- da mesma forma e com as mesmas propriedades, mesmo que relativas -- em qualquer lugar. Este já é o objetivo explícito de muitos dos investidores e anunciantes que apostam em mundos virtuais.

    Ao invés de cada mundinho sendo construído sobre sua própria fundação e plataformas, podemos terminar com poucas plataformas comuns e interoperáveis sobre as quais todos os espaços virtuais sejam construídos. E não só nos mundos virtuais. O esforço de Google e outros, com OpenSocial, é simplificar o universo de redes sociais através do uso de um conjunto aberto de interfaces de programação que possa ser compartilhado por múltiplas redes. De preferência, todas. Aberto, na internet, vai ser sempre mais interessante (no mínimo) do que fechado.

    Afinal de contas, o sucesso da internet se deve exatamente à existência de um conjunto pequeno, simples, aberto e bem entendido de infra-estruturas e serviços essenciais sobre os quais podemos construir nossas aplicações. E, pelo menos entre os que estão aí, mundos virtuais são meras aplicações (fechadas). Pode até ser que a próxima e distante geração da internet seja mesmo um metaverse único e fundamental, infraestrutura sobre a qual escreveremos serviços e aplicações e, quem sabe, nossas vidas. Mas de Second Life até lá vai ser preciso esperar, e viver, muitas encarnações.

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  10. Atualizado em -

    Homens, Mulheres, Crianças e Novas Mídias


    Novas tecnologias, novas mídias. Novas humanidades. Como sempre, aliás.

    Choveu. Muito. E ainda chove, pouco. Nada que consiga piorar o caos do trânsito do Rio, que saiu do caos-alegre dos cariocas para o caos-caótico que só vejo em São Paulo em seus piores dias. Túneis fechados são o mínimo. Pior é que todos os carros estavam indo para onde eu queria ir, e havia ido sempre, sem tanta companhia. Perdi o vôo das 21h, que deveria me fazer dormir em casa e estou, às 2h do dia seguinte, esperando -- num Galeão vazio de serviços, onde nem água se vende a esta hora -- esperando meu novo vôo das 3:25h, que já me disseram que só sairá às 6h, se sair. Mas a última consideração é minha, ninguém me disse. Nem dirá. Desinformação é a norma.

    Estranhamente, estou em paz. Combinação do que Padma Samten me fez aprender em alguns poucos encontros, quando tratávamos de coisas sobre as quais não temos nenhum controle (choveu, o avião não pôde voar de X para Y antes e só vai chegar aqui às 5:20h... fazer o quê?), com o sentimento de aprendizado e gratidão por ter participado de um debate na Academia Brasileira de Letras, sobre “O Homem e as Novas Mídias". O acadêmico Arnaldo Niskier fez a exposição inicial e os comentários foram de Marcos Troyjo, Mônica Dias Pinto e Regina Casé, além de mim mesmo.



    O homem e as mulheres e as crianças sempre estiveram e viveram em eras de novas tecnologias, que habilitaram, por sua vez, novas mídias. As tecnologias da TV criam as possibilidades de uma mídia que nos acostumamos a chamar de... TV, e que Niskier, olhando para a proximidade da TV digital no Brasil, entende que vai -- ou poderia, muito provavelmente -- revolucionar a televisão em Pindorama. Sei não.

    O que define os usos sociais de uma tecnologia qualquer não são suas possibilidades intrínsecas, mas os modelos de negócio ao seu redor. No caso do Brasil, tomamos decisões, lá atrás, quando da escolha do que vamos querer da TV digital, que visam manter os modelos de negócio praticados desde os primórdios da TV analógica. Imaginar que a tecnologia, por si só, vire o mercado de cabeça para baixo, quando ela continuará fechada e limitada nas mãos de poucos... não é exatamente um bom sinal de revoluções à vista.

    A provocação de Niskier gerou um belo debate sobre centro, periferia e inclusão (digital ou não), concluído brilhantemente por Regina Casé descrevendo o que ela tem visto e ouvido mundo afora. Partindo do seu avô, entregador de rádios (os aparelhos, grandes, de outrora... a nova tecnologia da época) que originou gerações de “midiáticos” até o fantástico caso do lugar mais remoto do mundo (pelo menos para ela), nos confins de Moçambique, onde nem português se falava.

    Achando que havia encontrado um lugar realmente remoto, Regina começa a filmar a rotina da tribo local, até que um celular começa a tocar e a senhora que lhe parecia mais rude e hostil do pedaço atende a chamada e desfia um rosário interminável de conversa... e estraga para sempre o barato de filmar “o lugar mais remoto do mundo”.

    O mundo -- quase todo -- está se incluindo rapidamente nas novas tecnologias que, por sua vez, habilitam novas mídias e modos de comunicação. Que falta gente, falta. Mas o problema é muito menor do que nós, que temos muito -- e tudo, às vezes -- costumamos pensar. Douglas Adams, do Guia do Mochileiro das Galáxias, costumava dizer que “tudo o que já existe no mundo quando nascemos é normal. O que acontece até completarmos trinta anos é inovador, instigante e, com sorte, é capaz de fazermos uma carreira nisso. E tudo o que rola depois dos nossos trinta anos é o fim do mundo”.

    Enquanto pensamos -- pelo menos os mais velhos -- que as “novas mídias” possam ser um problema, o mundo, principalmente seus jovens, descobrem muito rapidamente que elas são, na verdade, solução... para problemas com os quais nem sonhamos. Como usar Google para verificar a ortografia do português, problema que por sinal poderia ser muito melhor resolvido usando o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa , da Academia, que tem 360 mil vocábulos, referência oficial de como deveríamos, se soubéssemos, escrever a língua de Machado de Assis e Ariano Suassuna.



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  11. Atualizado em -

    O doutor e o controle remoto

    Muita gente não sabe operar um controle remoto. Nem mesmo do ar condicionado. Ótimo: vamos informatizar tudo. Mesmo?...

    Pesquisas de campo realizadas em várias universidades, considerando profissionais de diversas áreas do conhecimento, mostram que uma porcentagem significativa dos doutores não sabe operar um controle remoto (do ar-condicionado, por exemplo). O resultado desse anedótico levantamento pode até não ser a melhor razão do mundo para automatizar os prédios dos campi (e de outros lugares), mas o gasto de energia com sistemas de ar condicionado ligados, refrigerando prédios dentro dos quais não há ninguém, tem de ser considerado urgentemente.

    O aquecimento global é uma das razões. E o gasto, puro e simples, com energia, também. No caso do Brasil, diminuir o consumo de energia agora pode ser vital para a continuidade do crescimento, pois há risco de não haver energia suficiente em futuro próximo. Economizar é mais fácil do que construir novas centrais hidrelétricas ou nucleares. Será que é mesmo? Gastar energia como gastamos é parte da cultura, principalmente de quem tem como pagar. Parar de gastar exige mudanças comportamentais que podem ser mais complexas de implantar do que construir novas usinas.



    Aí é que a informática entra. Ou poderia entrar. Informática é o produto das tecnologias de computação, comunicação e controle. Imagine se seu crachá - quase todo mundo tem um - fosse parte de um sistema de informação (e automação predial, inclusive) dotado de um pouco de inteligência. Imagine que o crachá é a parte do sistema que anda com você. Para todos os efeitos (do ponto de vista do sistema) você é seu crachá; na verdade, o crachá é uma abstração que representa você e vai ajudar o “sistema” a tomar decisões pensando em seus hábitos, gostos e jeitos.

    Você e seu crachá entram no prédio. O sistema sabe. Computação e comunicação em ação. Ele se lembra de que, em quase todos os casos, você vai para sua sala. O ar condicionado de lá é ligado, sem sua intervenção (e graças ao controle... automático), para chegar aos poucos à temperatura de sua escolha (entre as temperaturas-limite definidas pelo sistema). Isso gasta muito menos energia do que você ajustar o ar-condicionado em 17° C, com ventilador em alta, para chegar rápido aos 25° C que você queria. Você chega na sala, que já está com 25° C, ou perto. Cortesia da automação inteligente, que lhe conhece - ou ao seu crachá- de perto.

    Você sai da sala, para uma reunião, às 11h. O sistema lembra que, em oito das últimas 10 vezes em que isso ocorreu, você só apareceu de volta às 15h. As luzes são desligadas e o ar vai tentar manter uma temperatura a partir da qual se gaste o mínimo de energia para voltar aos 25, quando você voltar. E se você não voltar? Aumente a informatização para o campus... e o sistema sabe se você está lá ou não. E ele saberia que, se você não saiu do campus, voltará para sua sala. Quase sempre. Se saiu, não volta. Quase nunca. As providências devidas são tomadas em função da presença ou não de seu crachá nas proximidades...

    E não é só. Se há aula, e você é o professor, na sala D004, às 14h, o sistema bota tudo no lugar pra evitar que você chegue lá na hora e a temperatura da sala esteja perto dos 35° C (o que é verdade, por exemplo, na sala onde dou aula). Há mais: os alunos também têm um crachá como o seu… e a presença deles é notada pela detecção de seus crachás. O que serve pra regular (olha o controle aí...) o ar-condicionado e muito mais.

    Mas tudo poderia estar no lugar e, por alguma razão, o professor não foi dar aula. Beleza: leva falta na lata, com tolerância de alguns minutos... e não vai poder dizer nem que deu aula ou que tentou dar mas a porta não abriu e coisa e tal. Se fosse verdade, o sistema teria dado um alarme lá na sala do controle e algum agente (humano, por enquanto) teria ido abrir a sala usando uma daquelas ferramentas medievais que hoje chamamos de chave.

    Alguma hora, pouco a pouco, a realidade vai ser muito parecida com esta pequena ficção. Muitas coisas serão muito melhores do que hoje. Quem já nascer dentro do sistema vai achar tudo muito prático, objetivo e “limpo”. Os que presenciarem, como nós iremos, o “sistema” sendo construído ao nosso redor, de forma inescapável, sentirão muita falta das priscas eras em que podiam, sem saber usar o controle ou depender de um “sistema”, sair de casa e deixar a luz acesa e o ar ligado.

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  12. Atualizado em -

    Deixando de existir... por um tempo

    A sociedade está se tornando da informação e a vida real depende cada vez mais dela. Quer ver? Experimente ficar sem documentos...

    Meus documentos sumiram no meio da festa, nas mãos do que a gíria policial chama de descuidista. Como não poderia deixar de ser, horas se passaram até que o fato fosse notado. Aí já era tarde, e tarde da noite. Busca aqui, busca lá, nada feito. Melhor cair na real e começar a cancelar cartões, inclusive de saúde. E começar vida nova.

    Nova mesmo. Fique sem os papéis e plásticos que costumam ser a prova de quem você é e, não mais que de repente, você não é ninguém e não pode fazer muitas coisas que, outrora, aconteciam num piscar de olhos. A começar por tudo que tenha relação com seu banco, do qual você depende pra ter dinheiro e pagar pela segunda via, digamos, da carteira de motorista. Seu dinheiro está lá, você foi pra lá também, e é um sábado de manhã. Não há ninguém do banco à vista. Você sabe todos os seus números e senhas, mas eles de nada lhe servem, porque seu cartão partiu desta para a melhor.





























    E não adianta ligar pra nenhum call center. Dinheiro? Só segunda. E um cartão novo? No “meu” banco, oito longos dias... Isso quando a entrega rápida deixaria um plástico na minha casa na segunda e, se fosse mesmo urgente, no domingo. Na hora em que me comunicaram os anos-luz de distância até um cartão novo, pensei ter passado, via algum trecho do hiper-espaço, da tal sociedade da informação para os tempos do correio a cavalo.

    Para muitas coisas importantes, a sociedade não é de informação coisa nenhuma. Dinheiro é uma delas. Dirigir é outra. A partir de sua viatura, o guarda vê meu prontuário on-line e descobre que estou apto a dirigir. Mas isso não importa, o que vale mesmo é a carteira que eu não carrego. Aliás, que sou obrigado -- por lei -- a carregar. Não é a sociedade da informação, é a sociedade de carregar papéis e plásticos que remetem à informação sobre você e seus direitos.

    Um dia, para tirar dinheiro do caixa automático, o cartão será mera redundância, quando a coisa fizer identificação biométrica, usando (por exemplo) impressões digitais. Aí, a menos que o ladrão roube dedos e consiga mantê-los em bom estado (do ponto de vista da leitora) e saiba as senhas relevantes, será impossível roubar um cartão, porque não ele não haverá. Isso, claro, pode ser feito hoje. E já é feito em muitas situações. O que falta é virtualizar de vez o que já é virtual, a informação sobre quem somos e quais são nossos “direitos”, em todos os sentidos. De verificação de identidade pura e simples até o atendimento complexo em um hospital.

    Pode parecer estranho, mas tal processo tem tudo a ver com a história do dinheiro. Antes dele, era preciso carregar coisas que seriam trocadas por outras. O dinheiro é simples informação sobre poder de compra. Evita que se leve, à loja, vacas para trocar por carro. O cartão de crédito ou pagamento virtualiza tudo outra vez, carregando num pequeno (e fácil de desaparecer) pedaço de plástico a informação sobre quanto dinheiro se tem. Ou se pode ter, se precisar. Para o dinheiro, a próxima rodada será a eliminação do cartão e o uso dos dados pessoais, biométricos, aqueles que realmente andam o tempo todo com você, como meio de identificação.

    Para todo o resto, quando tudo o que for preciso para sermos identificados for o que realmente somos em nossa simples e pura realidade física, teremos voltado, em plena sociedade da informação, ao tempo em que cada um era apenas o que, à primeira vista, parecia ser. Mas isso ainda vai levar muito, muito tempo. Até lá, não deixe seus “dados” dando sopa por aí, sobre a mesa da balada. Dá um trabalho danado pra começar tudo do zero de novo.

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  13. Atualizado em -

    Pelas próprias mãos, com o próprio bolso

    Inclusão digital: cada um por si. Um milagre do varejo a longo prazo e de as pessoas terem entendido que o governo não vai resolver seus problemas...

    Pesquisa recente da Research International aponta que a intenção de compra de PCs no Brasil, no futuro próximo, passa pela cabeça de 20% da classe D e está na agenda de 25% e 24% das classes C e B, respectivamente. Na classe A, em que quase todo mundo já tem pelo menos um computador em casa, a intenção de compra cai para 4%. Enquanto isso, dois terços da população nunca navegou na internet, e esse número só regrediu 1.1% entre 2005 e 2006.

    Na verdade, faz tempo que não estamos progredindo muito em acesso à informação, o que aumenta significativamente a distância entre quem tem oportunidades digitais e quem não tem. Roberto Ramos, da RCR Consultoria, em entrevista publicada na TIC Brasil , explica o que está acontecendo no Brasil digital, quais são as tendências e por que é que as coisas podem melhorar daqui para frente. Com cada um, mesmo os que não têm muito, gastando boa parte do que têm para ter acesso a, literalmente, uma janela para o presente.





























    Algum tempo atrás (em “Um Brasil que cresce como a China ”, nesta coluna) falamos das previsões de crescimento explosivo da indústria de PCs no Brasil. Os chutes dos analistas estão se transformando em realidade e as compras de fim de ano serão agitadas como nunca. É exatamente nas vendas no varejo, com financiamento de longo prazo (obrigado, Plano Real), feitas hoje para as classes B e C, e em breve pela classe D, que vem a festa da indústria, neste e nos próximos anos.

    A partir de dezembro os set top boxes de TV digital podem entrar na mesma agenda de compras a prazo, especialmente dos que não têm TV por assinatura. Ainda mais se as TVs abertas transmitirem, no canal digital, programas e eventos exclusivos (será?). Vai ser mais um “mídiabox”, mais uma conta para o bolso das classes B, C e D, já esticadas até o limite de seu endividamento ou depois. Mas desta história falaremos em dezembro. Até lá, vamos ver soluções de acesso sem fio (de banda “não muito estreita”) e de baixo custo no mercado, estressando ainda mais as finanças domiciliares, mas que podem trazer milhões de pessoas para a rede em pouco tempo, sem um pingo de esforço de Brasília.

    De qualquer forma, há pelo menos três boas notícias pra comemorar. Primeiro, as pessoas estão levando a sério a necessidade de ter um computador (conectado) e, como não há nenhuma política de inclusão digital pela via social, como telecentros em profusão, cada um está resolvendo seu problema, com o seu dinheiro. Por isso, em segundo lugar, mais gente está passando a entender que, por aqui, não adianta esperar pelo governo para certas coisas, inclusive as sociais. Melhor encarar a dificuldade, empreender e cada um fazer o seu. Terceiro, por causa dos dois primeiros, a indústria cresce e emprega mais gente. Pena que o imposto que paga a mais acabe no buraco negro dos gastos governamentais, no balcão de cargos, do descaso com a coisa pública.

    O mapa de exclusão digital no país, a "cara" do Brasil informatizado , hoje, não é muito diferente do censo de 2000, quase uma década depois… A esperança é que as próprias pessoas, independentemente de classe e renda, resolveram resolver o problema. Coisas do Brasil: impostos INgleses, serviços de GANA. Talvez devêssemos trocar o nome do lugar pra INGANA.

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  14. Atualizado em -

    O esgoto é a solução

    As redes de esgotos são o marco mais importante da história da medicina dos últimos 167 anos. E têm tudo a ver com inclusão digital.

    Em época marrom da política nacional, de vacas e cavalheiros (ou melhor, vacalheiros) indo para bem depois do brejo onde se perdiam nos velhos bons tempos, a coluna aproveita a oportunidade para falar de uma necessidade, raramente percebida por qualquer um e muito menos por representantes do povo, governantes e poderosos em geral: o esgoto.

    Sim, o velho e bom esgoto, aquele que políticos não gostam de fazer porque “obra enterrada não dá voto”. Paciência, leitor, vá até o fim, pois a conversa pertence mesmo a este espaço e tem tudo a ver com vida digital. O British Medical Journal, publicado desde 1840, perguntou a seus leitores qual foi o maior marco da história da medicina nos últimos 167 anos. Deu esgotamento sanitário, seguido por antibióticos. Coincidentemente, a noção moderna de esgoto tem quase a mesma idade do jornal.




























    No Brasil, só metade dos municípios tem “algum tipo” de tratamento sanitário; no Nordeste, 30% coletam esgoto e 13% coletam e tratam. Resultado? Uma fortuna torrada em “saúde”, sem os resultados esperados. O que já se sabia na Inglaterra do séc. XIX. Imagine a Amazônia, onde menos de 7% dos municípios têm algum tipo de coleta e/ou tratamento. Se a população aumentar, o que vai (o)correr nos rios da região? Enquanto isso, quanto da CPMF será usado em esgotos? Melhor nem perguntar.

    E nós com isso? Saneamento é uma rede de infra-estrutura social básica, como água, eletricidade e telefone. Esgoto é assunto de interesse social há cinco milênios e universalizado em qualquer país civilizado. Vez por outra, a gente reclama da inexistência de políticas públicas para incluir o país inteiro na internet, rede que representa as bibliotecas, enciclopédias, os jornais, diários, arquivos, TVs… do presente e do futuro, muitos deles escritos por nós mesmos. Mas internet é, no máximo, tão importante quanto… saneamento. Se não conseguirmos controlar o fluxo de efluentes -- incluindo o puro e simples cocô -- danosos à saúde e ao ambiente em terrenos, lagos, rios e mares, de pouco adiantará internet para todos, pois o mundo não vai estar aí mesmo. Nem pra nós nem pra nossos filhos e netos.

    A crise de água que o planeta já atravessa aumentará a pressão, em países como o Brasil, para incrementar a rede de saneamento. Não seria exótico pensar que qualquer governo interessado no futuro do país, cidade ou Estado estaria instalando esgotos agora, com toda pressa do mundo. Questão de saúde e de segurança pública, pois de sobrevivência.

    Que tal, pra aumentar nossas chances de futuro, universalizar o esgotamento sanitário, no Brasil, em 10 anos? Considerando que eletricidade já chegou a quase todos os domicílios, assim como água, e isso aconteceu antes da possibilidade (e baixo custo) de levarmos, juntamente com alguma outra infra, a internet (e de fibra ótica), a hora de universalizar a internet nas casas brasileiras é quando tomarmos a decisão de universalizar o esgoto…

    O custo de instalação cairia pra perto de zero, pois já temos que conectar o esgoto do país inteiro. E o problema seria localizado, cidade a cidade, cada uma decidindo o que e como fazer no seu espaço e com seu dinheiro. Muitos vão optar por redes aéreas como wi-max. Mas isso não é banda larga… larga mesmo, por casa, é 100 megabit por segundo. Ou seja, fibra ótica. Física. Instalada junto com os tubos do esgoto.

    Sonho? Pode ser. Mas parece razoável e exeqüível. Falta os políticos descobrirem que banda larga é tão necessária quanto esgoto e um insumo fundamental para o desenvolvimento econômico. Bem aqui no século XXI, e não em algum futuro remoto e intangível. Mas estamos no Brasil. O que ainda nos falta é chegar em 1840 e entender que esgoto universal é um item essencial da cidadania e da humanidade como entendidas hoje. A internet pode até esperar. Mas nos fará tanta falta, em breve, como esgoto nos faz hoje.

    Enquanto isso, é torcer para que a vaca e seus vacalheiros, ao invés de um idílico e perfumado brejo, se atolem numa bem profunda poça de esgoto. Que não foi coletado nem tratado por inoperância e culpa deles próprios.

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  15. Atualizado em -

    Rádio Digital: a indústria acorda

    O processo de escolha do padrão brasileiro de rádio digital andava meio morno. Parece que os interessados estão começando a dizer o que querem. Mas querem muito pouco...

    A ABINEE, associação nacional dos fabricantes de produtos eletro-eletrônicos, está começando a entrar no debate sobre a escolha do padrão brasileiro de rádio digital. O representante da indústria na audiência pública da Câmara dos Deputados sobre os testes com os padrões de rádio digital disse recentemente que... "Não vejo a intenção dos americanos (do padrão IBOC) em transferir tecnologia. A questão da transferência de conhecimento precisa ser negociada inclusive para que os preços dos produtos atendam a realidade do país. Se isso não acontecer, estamos fadados a extinção” .

    Nós, no caso, são os fabricantes nacionais de transmissores de rádio, segundo a ABINEE responsáveis por 90% do mercado brasileiro de rádio analógico. O padrão IBOC é fechado, propriedade de uma empresa, que cobra para que se fabrique ou use equipamentos que dependem de sua propriedade intelectual. No que está muito certa, por sinal: arriscou, investiu e quer seu rico dinheirinho de volta.




























    Pelo andar da carruagem, quem vai errar, de novo, é o Brasil. A preocupação da indústria é a fabricação -- agora -- de equipamentos e a correspondente receita, no mercado, de preferência fechado à competição internacional. A das emissoras, principalmente as pequenas, também explicitada no debate da Câmara, é do custo de transição do sistema de transmissão analógica para o digital. Como não poderia deixar de ser, há promessa de financiamento público, facilitado, para que isso aconteça. Se o leitor não sabe, quase toda estação de rádio tem um deputado, senador ou, de resto, político por trás. Até Renan tem pelo menos uma. Mesmo que não seja no nome dele. Mas isso é outra história, outro processo. Voltemos à nossa discussão.

    Do ponto de vista de uma política para rádio digital, o que o Brasil deveria estar fazendo? Deveríamos pensar no mundo e no futuro. Ao contrário do que fizemos em TV digital, ao desenhar um mercado digital semelhante ao definido pela nossa escolha analógica por PAL-M. Nosso padrão de TV digital, como o analógico, é brasileiro mesmo: só vai existir aqui. Mas... como pensar grande?

    O Brasil é grande o suficiente para ter um impacto considerável na globalização de qualquer padrão. Somos quase 200 milhões e nosso mercado interno de produtos universalizáveis, como rádio ou TV, é significativo. Ocorre que nenhum dos fabricantes locais de produtos eletrônicos é global ou capaz, minimamente, de interferir de fato em padrões mundiais. Até agora, justamente por causa disso, nossos fabricantes olham somente para o mercado interno; sabem que não conseguirão competir no externo. Em certos casos, não terão licenças, que seja, para produzir daqui para outros mercados.

    Uma política real para o Brasil, no cenário de rádio e convergência digitais, é nos associarmos a padrões abertos que tenham a chance de se tornarem realmente globais (o que não é o caso, definitivamente, do padrão IBOC). E fazer isso em dois passos: 1) introduzir, aqui, o estado da prática de um padrão global, seja lá qual escolhermos, sem nenhuma modificação e 2) participar, desde já, da criação da próxima versão de tal padrão, fazendo acordos e criando condições para introdução de conhecimento e propriedade intelectual nacionais nas versões futuras, para o que é necessário um investimento alinhado, entre governo, academia e indústria, em inovação e empreendedorismo.

    Trazer um padrão aberto, global, não modificado, nos faria entrar na escala global de custos e investimento em sistemas e dispositivos. Tirar, daí, recursos para investir na evolução do próprio padrão é questão de inteligência e sobrevivência. Só que nossas decisões recentes de política industrial não primam por nenhuma destas qualidades. No caso de rádio digital, agora é esperar pra ver. Ou nem isso: a indústria parece só querer saber o que vai fabricar agora, as estações dinheiro bom e barato para trocar os transmissores e o governo, até agora, não tem política e estratégia, de mercado ou indústria, do tamanho do Brasil, para se contrapor às pressões e criar uma visão de mundo. Nihil novum super terram...



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  16. Atualizado em -

    Um Brasil que cresce como a China

    O Brasil pode estar indo devagar. Mas o mercado de PCs está acelerado. Parece que vai crescer 23% este ano, e a pisada vai ser daí pra frente ano que vem...

    O Brasil, sabemos todos, é o país das desigualdades. Digitais, inclusive. Havia até um esforço, andando bem, no Senado, para levar banda larga às escolas públicas. Mas tudo parou com o RenanGate. E as escolas provavelmente vão ficar mais um ano sem orçamento pra entrar de verdade da internet. Talvez esta seja mais uma razão (como se fosse preciso) pra resolverem logo o problema do senador.

    Mas há novidades. Muitas, e boas. Enquanto a política e economia nacionais avançam a passo de impávido cágado, as pessoas, guiadas pelo sentimento de que ferramentas computacionais são essenciais para a educação de seus filhos e para suas vidas, resolveram criar espaço, em seus orçamentos, pra informatizar suas casas. Em bom português, o varejo está vendendo computadores como nunca, e em condições inéditas -- estas sim -- na história deste país.


    Computadores à prestação, e em muitas prestações (dois anos ou mais), transformaram, na prática, um produto em serviço. Dois, três anos, é o que um hardware suporta, com performance aceitável, face ao avanço frenético do software e suas demandas sobre a plataforma de execução. Dois anos pra pagar, três anos pra usar, até porque sabemos das dificuldades de adicionar memórias, discos e placas quaisquer a máquinas “velhas”, como o laptop de cinco anos de vida que (vez por outra, ainda) uso. Hardware como serviço.

    Mas isso é teoria. Na prática, segundo dados da ABINEE, a associação da indústria, 4.334.000 PCs foram comercializados no Brasil só no primeiro semestre de 2007, uma alta de 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Nesta conta, 670.000 são notebooks, uma astronômicos 156% a mais em relação ao ano passado... só em junho foram 170 mil portáteis, o que talvez dê uma boa medida do que vai acontecer daqui pra frente. No mesmo mês, 75% dos desktops vendidos tinham monitores LCD de 17 polegadas, o que anuncia o fim dos tubos de vídeo neste mercado. No Natal, ninguém vai querer um...

    Uma boa parte do crescimento nas vendas vem do varejo cuja participação no mercado subiu de 14% em 2005 para 40% em 2007, até agora. E vai crescer mais até o fim do ano. São as pessoas, o crédito, os PCs mais baratos, fazendo uma festa digital. Imaginem se a infra-estrutura de rede à nossa disposição fosse muito melhor do que temos hoje. Aí era que a coisa ia pegar mesmo. Mas isso ainda é sonho. Voltemos à realidade.

    Ou às previsões, melhor dizendo. Segundo a ABINEE, o tempo para os fabricantes de PCs vai ficar ainda melhor: os brasileiros vão comprar 10.100.000 computadores este ano, 23% a mais do que em 2006, dos quais oito milhões serão desktops e uns dois milhões, notebooks.

    Em 2005, os notebooks eram 6% do mercado; este ano, serão 20%. E as boas novidades não terminam aí: também em 2005, os PCs “clones”, ou caseiros, montados em lojas ou pequenas fábricas (parte das quais informais) eram 60% do mercado total. Em 2007,espera-se que tal “produção” caia para a metade, resultado de um esforço federal, acertado, de redução de impostos e simplificação dos processos de negócio no setor.

    Menos impostos, muito mais máquinas legais no mercado, muito mais imposto arrecadado. Mais empregos, mais recursos para inovação, mais gente se preparando para competir, mais competição, e preços caindo. O preço médio dos desktops caiu de R$1.669 para RS1.568 entre o primeiro trimestre de 2006 e o segundo de 2007, e o dos notebooks despencou de R$4.807 para R$2.629 no mesmo período, o que explica porque estamos comprando mais notebooks.

    Bem que o governo podia aprender uma coisa ou outra com esta parte da política de informática. Não resolve tudo e não incentiva, por exemplo, consoles de jogos, software e tantas outras coisas. Mas pelo menos no mercado de PCs está funcionando muito bem. Até aqui, o Brasil dos PCs está crescendo a taxas chinesas. Será que poderia olhar pra fora e se tornar competitivo no mundo, como eles são? Aí, aqui, tudo seria mais barato, ainda por cima. Sem falar em muito mais empregos, mais negócios, mais inovação... e impostos pagos.

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  17. Atualizado em -

    A pirataria de software diminui. E daí?

    Aparentemente, copia-se (ilegalmente) menos software no país. Mas a pirataria ainda é muito mais da metade do mercado (potencial). E o futuro, diz o que sobre licenças de software?

    Dados de uma pesquisa mundial da IDC revelam que, entre 2005 e 2006, a pirataria de software diminuiu, por aqui, quatro pontos percentuais. Caiu de aparentemente astronômicos 64% para potencialmente absurdos 60%, o que coloca o Brasil seis pontos percentuais abaixo da América Latina e 25 acima da média mundial, que é de 35%. Só que não estamos tão mal: Armênia, Moldávia, Azerbaidjão, Vietnam e Zimbábue têm 90% ou mais de seu software pirateado. Uma longa distância da Alemanha e Suíça, que acusam meros 27% de pirataria.



    Pera aí: como assim, 27% de pirataria de software da Alemanha e Suíça, dois dos países mais educados, sofisticados, ricos e cumpridores de leis e regras de todo mundo? Isso deveria significar (será?) que a taxa básica, inevitável, de pirataria de software (vendido como licença de uso) é “naturalmente” perto de 30%? Se nem os alemães e suíços, como um todo, conseguem cumprir a regra -- neste caso, de comprar uma licença para uso -- será que é porque há uma taxa “inevitável” de pirataria de software? Este é, certamente, um debate muito, muito quente, em qualquer lugar do mundo.

    Software pirata vem sendo usado de fato, desde que começou esta história de se vender licenças de uso (na década de 80) até como uma forma (alternativa e publicamente condenada pelos vendedores) de disseminação de plataformas e padrões. Em casa, ou no trabalho informal, você usa e aprende (de graça) o software que, um dia, pago, vai usar no local de trabalho. É legal? Não. Mas até que ponto não é útil para os produtores, como parte do processo educacional?... Assunto complicado, até porque sua discussão pública não é muito comum.

    Vamos deixar isso de lado e usar um pouco da teoria econômica aplicada ao assunto. Estudos realizados desde a década de 90 mostram que as variações globais na renda (e não produto) per capita, nos variados países do mundo, explicam mais de 80% da pirataria de software. E que o ambiente de negócios, sua estruturação e riqueza são uma parte muito importante do processo. Por esta ótica, seria mesmo uma surpresa 95% de pirataria na Armênia e 94% no Azerbaidjão? O custo da cópia é zero e a perda de qualidade (se você quiser enfrentar um mínimo de risco) é nula. Por que, neste contexto, pagar por uma licença?...

    A mesma pergunta pode ser feita na Venezuela, que enfrenta 82% de pirataria. Ou no Brasil, com nossos impávidos 60%. Considere o cenário acima e se faça uma pergunta adicional: que porcentagem do software para PCs, usado no país, é brasileiro? Perto de zero. Qual o impacto que há, em Taperoá, ou sentido por lá, em se copiar seja lá que software for, num lugar onde poucos têm qualquer noção de produção ou de propriedade intelectual?... O “ambiente de negócios” para produção intelectual precisa existir ao mesmo tempo em que se queira, ou se possa, discutir ou disputar propriedade intelectual.

    Mas o fato é que este ambiente e sua economia ficaram concentrados em uns poucos países do mundo – digamos -- civilizado. Ao resto do planeta, restou o mero consumo dos bens e serviços abstratos com os quais não há (à vista do consumidor) nenhuma conexão. Sem falar que as campanhas contra a pirataria muitas vezes se perdem no que se convencionou chamar de “medo, incerteza e dúvida”, o que lhes descredita quase no dia seguinte à primeira aparição na TV.

    Aí sobra uma incerteza, na cabeça de muitos, sobre o que é, ou deveria ser, propriedade intelectual de software e seu controle e negociação. Sem isso, não se consegue entender corretamente, por exemplo, o que é software livre. Que não é, por sinal, uma zona onde qualquer um faz o que quer nem é, muito menos, necessariamente grátis.

    Mas a confusão -- e as preocupações dos vendedores de “licenças” -- tem data e hora para acabar: software está se transformando em serviço e, fechado ou aberto, será provido como eletricidade. Será informaticidade, atrás de tomadas na parede, ou de redes sem fio, rodando em algum lugar que não precisamos nem saber onde. Pelo qual pagaremos, se quisermos as facilidades mais radicais... ou usaremos de graça, em troca de vermos anúncios (ou outra forma de remuneração indireta do provedor), até que precisemos usar a coisa de forma mais profissional.

    De uma ou de outra, por bem ou por mal, os dias da pirataria de software estão contados. Porque não haverá mais software, e sim o serviço baseado nele...

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  18. Atualizado em -

    Cada dia que passa...

    O mundo digital tem muuuitas vantagens. Mas não só. Cada vez mais, podemos fazer coisas dentro de um contexto digital. Que envolve espaço, entre outras características. Aí é que o bicho começa a pegar...

    Cada dia que passa, a vida pode ficar muito mais simples. Ou complexa. Só depende de seu ponto de vista. Imaginando que você queira usar toda a tecnologia que existe ao seu redor para lhe servir (e servir aos outros, como o motorista de táxi e o navegador GPS, par que vai se tornar ubíquo nas grandes cidades), a computação e controle, conectadas em rede, estão aí pra isso mesmo. Sua vida vai ser arretada. Muito mais produtiva, eficaz, eficiente e de qualidade. Sem ruído, até. Radio Head, a banda, já escreveu sua trilha sonora.

    Mas pense que você quer, pura e simplesmente, gazear aula, como todo mundo da minha geração fez (fugindo dos caça-gazeteiros...) e todo adolescente hoje faz, fugindo de ninguém, a julgar pelo mundo de gente que vejo, vez por outra, em horário de aula, de farda no shopping. Se depender das tecnologias de informação e comunicação do presente e do futuro próximos, sua vida vai ficar muito mais difícil. Infernal, talvez.



    A partir de dezembro, Tokyu Security vai oferecer um serviço (custo: 10 reais a cada seis meses) que avisará os pais sempre que os filhos passarem numa catraca do metrô (só em Tokyo, por enquanto). Num lugar onde as pessoas só se movem de metrô, os menores movimentos dos filhos, fora das atividades programadas pelos pais, serão vigiados, notados e, muito provavelmente, controlados. E isso está proposto para o ensino primário e médio, lá. Será que vai ser tentado pra universidade, também?
    Ainda mais: será que é isso mesmo que queremos que aconteça em todas as situações?…

    Consigo me lembrar de centenas de vezes, na vida, em que meus pais não deveriam ter me vigiado enquanto eu fugia das regras estabelecidas –por eles e por outros - e tratava de alguma inovação... pra minha vida, pelo menos. Às vezes era fumar escondido e no horário da aula. Dentro da escola, o que não seria detectado pela tal vigilância do metrô. Até porque não tínhamos esta sofisticação em Arcoverde. Noutras, era pegar a bicicleta e rodar estrada afora, na hora da aula, que de resto era um saco mesmo. Talvez, em pelo menos uma dúzia de vezes, devêssemos ter sido pegos. Mas não em todas... ou mesmo na maioria.

    O mundo lá fora é perigoso e diferente da minha vida no interior de Pernambuco e Paraíba nos anos 50-70 do já tão distante século passado? É. Mas precisamos tomar cuidado, e muito, para não criarmos gerações inteiras de crianças de granja… que terão muito pouca capacidade de ler e reescrever o mundo ao seu redor. Precisamos de mais meninas e meninos de capoeira, que criem novas decodificações e proposições do e pro mundo, capazes de apagar o que de errado no que seus pais e avós estavam fazendo. Sem isso, não haverá nada de “novo” mundo... vai ser tudo, pra sempre, a mesma coisa.

    Mas como isso vai rolar, se esse povo for vigiado o tempo todo, em todo lugar, a cada detalhe? Pense no que está para acontecer em sistemas de localização (o que descrevemos acima, no fundo, é um deles) e imagine-se localizado por quem tem algum interesse em você, a qualquer lugar e hora. Pode ser seu empregador, gerente, namorada, pai, mãe, mulher, alguém que quer lhe vender algo, seus prestadores de serviço... enfim, todo mundo que tem algo a ver com você. Se todo este povo lhe perseguir, sua vida vai ser um verdadeiro inferno digital. Limites, ofertas, perguntas, ditames, desejos... vão lhe aporrinhar o tempo inteiro. Para alguns deles, desligar o celular vai parecer a confissão de um crime. Que você não cometeu. Mas não precisa explicar, e deveria ter o direito de não precisar.

    Pois preste atenção: este mundo vigiado está vindo por aí, insidiosa e vagarosamente. Antes que ele lhe pegue, comece a pensar como, socialmente, nós e nossos filhos vamos argüir pelo direito a um habeas data universal, antes que não tenhamos - mesmo - mais nada a esconder. Se chegarmos lá, uma parte essencial da natureza humana estará perdida para sempre...

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  19. Atualizado em -

    Há vida em Second Life?

    A taxa de mortalidade infantil de Second Life é de 90 em cada 100 avatares ao fim do primeiro mês de vida. Estaria o mundo virtual, como seus avatares, fadado a morrer?...

    A revista Wired de agosto trata Second Life em termos muito pouco amigáveis, ao tom de “How Madison Avenue Is Wasting Millions on a Deserted Second Life” (“Como Madison Avenue está jogando milhões de dólares fora, num Second Life deserto...”). Madison Avenue, nos EUA, é si